terça-feira, julho 17, 2007

Sob o Signo da Liberdade



Quem teve a possibilidade de estar presente no último Fórum realizado na ELT dia 04 de julho, que tinha como tema A diversidade na formação do ator, pode conferir uma discussão que correu paralelamente, que era sobre a questão da escola não ser muito reconhecida no seu entorno, até chegarmos ao ponto de qual tinha sido a idéia inicial de formatação da escola na cidade.

Este texto abaixo é do Livro "Os caminhos da criação - Escola Livre de teatro, 10 anos", e acredito que ele nos ajuda a entender um pouco melhor quais foram os critérios e os desejos daqueles pioneiros que plantaram a semente da ELT, que neste ano completa suas 17 luas. Acredito ser uma leitura ríquíssima, simples e direta, e também importantíssima para saber de onde viemos e por que estamos aqui. E instigo a todos a comentarem seja aqui, seja na comunidade da ELT sobre as impressões dos textos. Abraços!

Marcio Castro

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Sob o Signo da Liberdade

O nome Escola Livre de Teatro já estava escolhido antes mesmo que o projeto estivesse estruturado no papel. Constava do programa político do então candidato a prefeito Celso Daniel e provinha de uma idéia do diretor de cultura, Celso Frateschi, segundo a qual a meta deveria ser "o embasamento, algo que permitisse passar para a comunidade os instrumentos necessários para se fazer teatro”. Neste sentido, a palavra "livre" parecia o elo essencial que uniria dois conceitos tão complexos e muitas vezes de difícil conjunção: o de escola (a práxis do ensino) e teatro (uma práxis da arte).

A opção por uma escola de teatro atendia a uma reivindicação dos núcleos de artistas da região, ao mesmo tempo ia ao encontro da forte tradição que a cidade possui na área desde fins da década de sessenta. Em Santo André surgiram grandes nomes do teatro nacional, muitos diretores passaram por aqui e um grupo de solidez e renome marcou época na década de setenta, o GTC.

A experiência do Grupo de Teatro da Cidade, além da importância política de suas posições, deu frutos de qualidade artística, cujo maior exemplo é o espetáculo Guerra do Cansa-cavalo, que inaugurava em 1971 o Teatro Municipal e viria a ser assistido por quase vinte e três mil pessoas. Até hoje, alguns de seus membros, como Antônio Petrin e Sônia Guedes atuam na vida artística brasileira. Curiosamente, o GTC nasceu da reunião de atores recém-­formados pela Escola de Arte Dramática.

Já era o momento da tradição ser retomada. A idéia de uma escola ganhava concretude na medida em que isso representava não um produto artístico acabado, mas o potencial para a realização de uma produção cultural independente. Um pouco de acordo com a velha sentença: "não dê o peixe, ensine a pescar".

Na primeira semana de maio de 1990 os jornais da cidade anunciavam: "Santo André cria escola de teatro". A notícia havia sido dada durante a apresentação da peça Quase Primeiro de Abril, em cujo processo de criação se reuniram mais de duzentas pessoas discutindo teatro por três meses.

A sorte estava lançada. Para estruturar e dirigir o empreendimento foi convidada a pesquisadora e diretora teatral Maria Thais Lima Santos, que em pouco tempo e intensa atividade, formulou a proposta da Escola livre de Teatro.


O Projeto Piloto

No texto do "Projeto Piloto" constavam apenas alguns dos princípios que deveriam nortear a futura escola. Nada de organogramas detalhados ou conteúdos programáticos de cursos. Na introdução podia-se ler: "Necessitamos criar novas opções de centros facilitadores, onde as pessoas interessadas na pesquisa de linguagem teatral disponham de um espaço onde o oficio possa ser estudado e aprofundado".

Basicamente, são duas as espécies de escolas teatrais encontráveis no Brasil: ou adotam o modelo acadêmico clássico, que equilibra formação teórica e prática segundo uma perspectiva mais histórica do que estética e mais passiva que ativa, onde os professores muito frequentemente não mais exercem atividades artísticas, ou visam apenas fornecer certificados profissionais e fabricar atores descartáveis, conquistados com a ilusão do trabalho na televisão.

O intuito básico da proposta da Escola livre era conseguir a mobilidade de uma oficina cultural sem perder de vista a perspectiva formacional do aluno. Cuidar de seu crescimento artístico e instrumentalizá-lo em termos de conhecimento teatral sem amarrá-lo a obrigações curriculares pré-fixadas.

A palavra "livre" do nome era novamente invocada. A escola é em primeiro lugar um espaço de formação do individuo. A dimensão humana deve anteceder a dimensão profissional. Para isso tornar-se realidade, foi preciso desvincular-se das exigências curriculares do Ministério da Educação e Cultura e desobrigar-se de conferir diplomas profissionais. A ELT afastava-se cada vez mais dos padrões normais de ensino teatral e se lançava na busca da experimentação.

Grupo Yaksharange (índia)
II Mostra Internacional de Teatro -Julho de 1990
Coleção PMSA / Acervo Museu de Santo André
Foto: David Rego Jr.




A Decolagem

O termo livre define o projeto da escola no sentido de uma concepção aberta, antenada com a produção teatral no Brasil e no mundo e de poder vir a ser um centro de pesquisa, incentivador do processo de experimentação artística.

Concebidos os princípios, era preciso colocá-los em movimento. Na realidade, a Escola livre era o eixo central de um projeto teatral mais amplo da Prefeitura, que incluía a revitalização do Teatro Municipal, a ocupação dos centros comunitários com o teatro, o incentivo às produções regionais e a realização das Mostras Internacionais.

Dado este quadro, era o momento de lançar a Escola. Ante a pergunta de como fazê-lo, a resposta parecia inequívoca. A Mostra Internacional seria uma forma de testar a receptividade da população à linguagem teatral.

E assim foi. O lançamento oficial da ELT deu-­se com a Primeira Mostra Internacional de Teatro de Santo André e São Bernardo do Campo, realizada entre 28 de junho e 08 de julho de 1990. Dela participaram grupos de Cuba, Estados Unidos, Índia, Rússia, Espanha, Canadá e Brasil.

Santo André entrava no circuito cultural do país e "antenava-se" com a produção teatral do mundo. O sucesso foi estrondoso. Pessoas vinham de São Paulo e outras cidades para disputar um ingresso nas grandes filas que se formavam frente à bilheteria. Durante treze dias, mais de dez mil pessoas lotaram o Teatro Municipal.

Como parte do evento, quatro dos grupos convidados promoveram workshops e paralelamente foi ministrada uma oficina de interpretação com a professora e diretora Maria Helena topes, do Grupo Tear de Porto Alegre. A ELT nascia num contexto de agitação criativa e efervescência cultural.

No dia 27 de julho de 1990, abriam­-se as inscrições para uma turma de Vinte e cinco alunos. A ELT oferecia seu primeiro curso regular. Apareceram cento e noventa candidatos, oitenta por cento dos quais eram moradores de Santo André.

Um comentário:

Thigs disse...

Acho também que está na hora de nos movermos para mexer um pouco com essa situação passiva que nos encontramos, esse texto nos dá aquela vontadezinha louca de fazer mais...